Às vezes, ele nasce no silêncio entre o que termina e o que ainda não começou."
Buka Monteiro
Carta da autora
Esse ebook nasceu de um tempo repleto de pequenas pausas, perdas e um olhar pra dentro. Daqueles períodos em que a vida obriga a desacelerar o ritmo dos pensamentos, eliminar o que não cabe mais e focar no que realmente importa.
Aprendi que não existe recomeço possível sem antes existir um mergulho. Um mergulho que ainda quero aprofundar. Às vezes confuso, quase sempre silencioso, mas necessário pra voltar a me ouvir. É dentro da gente que o novo começa a tomar forma, mesmo quando por fora tudo parece igual.
Por muito tempo, tentei ser a mulher que resolve, que suporta, que antecipa o passo seguinte. Mas a vida, com sua forma sutil de ensinar, foi me mostrando que força demais também pesa. E que às vezes é no intervalo entre o que termina e o que começa que a gente se reencontra.
Eu não escrevi essas páginas pra ensinar nada. Escrevi pra lembrar.
Pra lembrar a mim e talvez a você que a leveza vem da arte de trazer sorrisos, mesmo quando tudo parece perdido, mesmo que ainda doa. Não é sobre mascarar a dor, é sobre conseguir encontrar uma graça no viver. Viver o que há pra viver.
Esse foi o maior aprendizado que tive com meu pai. No meio do turbilhão, ele sempre encontra um jeito de resgatar o riso. De abrir o olhar e o coração pra um mínimo traço de luz. E talvez seja isso o que eu mais quero aprender com ele: seguir achando beleza, mesmo nos dias em que a vida parece apagada.
Cada texto aqui é um pedaço de mim. De quem já se quebrou, já se refez e segue tentando. De quem entendeu que amadurecer é perder o medo de sentir.
Se essas palavras te alcançarem num dia pesado, que elas te sirvam de respiro. Se te encontrarem num tempo de recomeço, que te façam lembrar: não é preciso ser nova, basta ser honesta com o que se é.
E que venha o que tiver que vir, com chão, com alma e fé na vida.
Buka Monteiro
Prólogo
Quando o corpo pede trégua
Tem dias em que o corpo pede calma. E a cabeça não entende. A gente tenta seguir, resolver, planejar. Mas algo lá dentro começa a frear. Não é preguiça. É limite.
Demorei pra perceber que viver acelerada não é sinônimo de estar viva. Que o fazer sem pausa é só uma forma elegante de fugir de si. E que tem um preço alto pra quem vive tentando ser funcional o tempo todo. A gente desaprende a sentir.
Hoje eu já não quero dar conta. Quero dar espaço. Pra mim, pros meus silêncios, pras minhas vontades que não cabem na agenda. Quero entender o que o corpo diz quando trava (a coluna, por exemplo), quando o olho pesa (de sono), quando a alma pede cama. Porque tem um tipo de sabedoria que só o cansaço ensina. Que seguir nem sempre é continuar correndo.
Tô reaprendendo a viver sem a obrigação de ser produtiva o tempo todo. Sem a urgência de justificar o cansaço. Sem o medo de parecer fraca só porque parei.
O que eu quero agora é presença. Presença real, com as dores daquele momento, mas inteira no sentir e no que eu me proponho a fazer. Quero me apresentar cada vez mais com menos máscaras. E pra isso, é essencial escolher bem onde eu devo ou quero estar.
Talvez o recomeço comece quando a gente desiste de ser perfeita e aceita ser gente. Gente que sente, que pausa, que ri mesmo cansada. Gente que aprende a achar graça até nos tropeços da vida. E isso, pra mim, já é muito.
Capítulo 1
O descanso também é coragem
A gente aprende a agir antes de sentir. A resolver antes de entender. A cuidar de tudo, menos do que tá por dentro.
Mas chega uma hora em que o corpo começa a negociar com a alma. A mente diz que dá, o corpo responde que não. E é nesse impasse que mora a coragem de pausar nem que seja por instantes.
Descansar não é luxo. É sobrevivência. É o corpo dizendo: eu ainda quero ficar, mas preciso de pausa.
Por muito tempo, eu confundi descanso com culpa. Sentava e pensava no que estava deixando de fazer. Deitava e fazia listas mentais. Até entender que parar não é deixar de existir. É existir de outro jeito.
Tem uma parte do descanso que é dura. É o silêncio que mostra o tanto que a gente tava tapando com barulho. A mente inquieta, o coração apressado, a sensação de que se eu parar, tudo desanda. Mas o que desanda mesmo é seguir no automático.
Hoje eu respeito o tempo das pausas. Tem dia que o descanso é cochilo. Tem dia que é mar. Tem dia que é choro no banho ou risada sem motivo. Tudo isso também é coragem.
Coragem pra se escutar. Pra admitir que não dá pra ser o tempo todo forte e inteira. Pra rir do próprio exagero e se perdoar por não render tanto quanto o mundo espera.
Porque coragem não é só ir. Às vezes é ficar. É se recolher pra não se perder. É olhar pra dentro e admitir que, antes de seguir, eu preciso respirar.
Descansar é um ato de fé. É quando a gente confia que o mundo não vai desabar só porque a gente parou um pouco. E toda vez que eu me permito essa pausa, percebo: não é o tempo que me cura, é o espaço que eu me dou pra viver realmente o que ele traz.
Capítulo 2
Raiz e sustento
Tem coisa que a vida só ensina quando a gente para de correr. E uma delas é entender o que sustenta a gente de pé.
Por muito tempo eu achei que era o trabalho e as pessoas que eu amava. Mas o medo de decepcionar, mesmo existindo, nunca me paralisou. Meu medo sempre foi outro. Era o de me decepcionar comigo mesma.
De me ver indo por caminhos que não tinham nada a ver comigo. De me perder tentando corresponder a expectativas que nem eram minhas. De olhar pra trás e perceber que fiquei o tempo todo servindo a tudo, menos ao que me fazia viva.
O tempo foi me mostrando que tudo muda. E o que sobra, quando o barulho passa, é a raiz.
Raiz não é apenas sobre o lugar de onde a gente veio. É além. É o que nos mantém firmes quando o vento muda. É saber voltar pra si quando o mundo começa a girar rápido demais.
Às vezes essa volta é silenciosa. Outras vezes dói. Porque voltar pra dentro é encarar o que ficou mal resolvido. É dar nome pro que machuca e soltar o que já não cabe.
Tem dias em que minha raiz é o chão da casa. É o cheiro do café. É o olhar de quem me conhece sem precisar de palavra. Outros dias, é o meu próprio silêncio. É o que eu faço quando o resto do mundo pede barulho e eu escolho ficar quieta.
Raiz também é herança. São os gestos que ficam. As risadas que ainda ecoam dos ensinamentos que tive dentro de casa. É a lembrança boa que aparece no meio do caos e me lembra que tem coisa que sustenta só por existir.
Raiz é o que me lembra que eu não preciso estar firme o tempo todo. Que posso balançar, me curvar, cair um pouco e ainda assim permanecer. É o que me dá sustento pra não desabar de vez.
E é por isso que hoje eu cuido mais do que me nutre do que do que me exibe. Menos palco, mais chão. Menos pressa, mais verdade. Raiz não é prisão. É lar. E toda vez que o mundo me puxa pra fora, eu volto pra ela.
Capítulo 3
Recomeçar é continuar de outro jeito
Recomeçar não é zerar nada. A gente nunca volta pro ponto de partida. Quando a vida pede um novo começo, ela também traz na mala tudo o que já vivemos. Os erros, as pausas, as conversas que doeram e os silêncios que salvaram.
Por muito tempo eu achei que recomeçar era apagar o que passou. Mas o tempo mostrou que não dá pra seguir leve fingindo que o peso não existiu. O que muda é o jeito de carregar.
Recomeçar é continuar, mas com outro olhar. É escolher ir, mesmo sabendo o que doeu. É fazer as pazes com o que foi e ainda assim seguir curiosa pra ver o que vem.
Tem recomeço que é discreto. Começa num pensamento novo, num "acho que agora dá". Outros são mais visíveis, cheios de mudanças e decisões grandes. Mas todos têm o mesmo ponto de partida: a coragem de tentar de novo.
Nem sempre há clareza no meio do caminho. Às vezes o recomeço parece confuso, meio fora de ordem. Mas é assim mesmo que a vida se rearruma. O caos também é fértil.
Hoje eu entendo que não existe começar do zero. Cada passo novo carrega o rastro do que já foi vivido. E é justamente isso que dá força, sabedoria e calma pra seguir.
Recomeçar é continuar de outro jeito. Com o que ficou, com o que se perdeu, e com o que a gente decide levar. Pode ser o mesmo caminho, só que com outra consciência. E talvez seja isso que torna o recomeço tão bonito. Ele não promete nada, mas convida a viver tudo de novo, com mais bagagem, mais verdade e mais sustância de vida.
Capítulo 4
A mulher que eu me tornei
Demorei pra entender que eu não precisava ser a mulher ideal. Nem a que dá conta, nem a que equilibra tudo, nem a que sorri o tempo inteiro. A mulher que eu me tornei é outra.
Ela sente cansaço e, mesmo assim, aparece. Fica feliz e triste no mesmo dia. Diz sim por amor e não por cuidado. E às vezes se cala, mesmo que me custe muito, não por medo, mas por paz.
Eu já quis provar muita coisa. Ser boa o suficiente, forte o bastante, calma, mesmo indo contra a minha natureza afoita. Hoje eu só quero ser honesta comigo. Nem sempre tô bem, e tudo bem. O que me move agora não é o desempenho, é o sentido.
Aprendi que a vida real tem rachaduras. E é por elas que a luz entra. Que o que me define não é o que eu entrego, mas o que eu sinto enquanto faço. As pessoas ao redor sentem também.
Tem dias em que eu brilho. Tem outros em que só tento não apagar. Mas em todos, eu tô viva, sentindo, tentando.
Ser quem eu sou hoje é aceitar a imperfeição como parte da beleza. É me olhar com mais gentileza e menos cobrança. É entender que cuidar de mim não é luxo, é raiz. E que escolher o meu próprio ritmo é a forma mais bonita de liberdade.
A mulher que eu me tornei também aprendeu a rir de si. O riso virou meu jeito de respirar quando o dia pesa. Ele não apaga o que dói, mas abre espaço pra continuar. Porque leveza, eu descobri, não é ausência de peso. É o dom de achar graça, mesmo com o coração apertado.
Eu não quero ser exemplo. Quero ser verdadeira. Quero estar presente, mesmo quando o mundo pede pressa. Quero ter o direito de mudar de ideia, de me reinventar, de me refazer.
E talvez o segredo seja esse. A mulher que eu me tornei não busca ser mais. Ela só quer ser inteira no sentir e livre no viver.
Epílogo
Que venha a leveza
Leveza não é falta de peso. É saber o que ainda vale carregar.
Antes, quando a dor aparecia, eu cobria. Disfarçava. Tentava seguir como se ela não estivesse ali. Mas dor encoberta é dor acumulada. Ela não some, só muda de canto até o corpo cansar.
Hoje é diferente. Quando a dor vem, eu me abro. Mesmo com medo, eu encaro. Olho pra ela devagar, sem pressa de entender tudo, mas disposta a não fugir. A dor, às vezes, é o coração lembrando que ainda sente. Foi assim quando eu pari meu terceiro filho. Uma experiência de dor que precisei encarar de frente, até tê-lo nos meus braços.
Nem sempre é bonito. Tem dias em que encarar o que dói é o ato mais corajoso que eu consigo fazer. Mas é isso que me devolve pra mim. A leveza vem depois, quando eu deixo de brigar com o que sinto e passo a viver com mais verdade.
Ser leve não é não sentir. É sentir tudo, mas sem se perder dentro disso. É aprender a respirar mesmo quando o peito aperta. É perceber que o tempo não cura, mas amacia. E que a dor, quando vivida de frente, perde o poder de me paralisar.
A vida não ficou mais fácil. Talvez eu tenha ficado mais amadurecida, mais caridosa comigo mesma. E quando a gente aprende a existir com presença, o resto se ajeita no tempo.
Que venha a leveza. Que venha o sorriso solto, o silêncio necessário e a coragem de seguir amando a vida, mesmo quando ela pesa.
"Que venha o que tiver que vir, com chão, com alma e fé na vida."
Buka Monteiro
Sobre a autora
Diretora de gente, gestão e marketing, e agora escritora. Buka Monteiro é mãe, comunicadora e mulher de muitos recomeços. Nordestina de alma e olhar sensível, escreve sobre o cotidiano, o cansaço, a coragem de pausar e o renascimento que vem depois.
Com uma trajetória marcada por liderança e afeto, e alguns arranca-rabos necessários, Buka acredita que o trabalho e a vida só fazem sentido quando a gente se permite ser inteira, com pausas, imperfeições e verdades. Sua escrita nasce desse lugar: o da mulher que sente, pensa e transforma o que vive em palavra.